A ingenuidade pode mudar o mundo

Quando, aos 30 anos de idade, me veio a louca ideia na cabeça de voltar para faculdade, eu não sabia muito bem o que eu queria com isso. Me vi em Letras, aquele curso onde todo mundo acredita que só é possível sair professora. Que diabos eu estava fazendo ali se nunca quis ser professora?

E aí, é engraçado como a gente começa a repensar as certezas que sempre tivemos na vida. Talvez elas não fossem tão certas assim, não é mesmo? De repente você está pensando em como você agiria em uma sala de aula se tivesse a chance de estar em uma. Mas ué? Você nem queria ser professora!

Quando dei de cara com essa possibilidade, rechacei à primeira vista e continuei batendo forte no peito de que aquilo não era pra mim. Até que me atingiu em cheio uma verdade um pouco ingênua e inconveniente naquele momento: talvez a educação possa sim mudar o mundo. E, afinal de contas, mudar o mundo é tudo que eu sempre quis.

Comecei a pensar no papel de um professor na sala de aula, em como mudar a vida dos alunos e como mudar o mundo através desses alunos. Pensei tanto que me vi refletindo sobre como eu acredito que deva ser a sala de aula. Talvez seja minha ingenuidade falando, mas talvez a ingenuidade vá mudar o mundo.

A busca pela identificação como parte de uma sociedade deve ser o pressuposto para levar para a sala de aula temas como preconceito, direitos humanos e diversidade. A ideia de que as diferenças fazem parte de quem somos e das nossas contribuições para a comunidade que vivemos é o que sustenta o eixo da educação democrática. Fazer com que os alunos se sintam parte do todo, inclui mostrar que não somos iguais e, por conseguinte, ensinar a respeitar o próximo, reconhecer as particularidades e exaltá-las como parte de uma identidade pessoal.

Ao se reconhecer como parte de uma sociedade composta por diferentes, o aluno entende que diferentes trajetórias os levaram ali. É necessário que o docente esteja preparado para reforçar os caminhos que a sociedade brasileira trilhou para chegar aonde estamos. Precisamos falar sobre os racismo estrutural, sobre o machismo patriarcal enraizado, sobre como nossa sociedade sofre com essas heranças que ainda deixam marcas e as consequências no dia a dia dos alunos. Se um menino negro chega à escola narrando um episódio de preconceito devido à cor da sua pele, é necessário que a instituição esteja preparada para assimilar esses casos e usá-los como pressuposto de discussão, levantando a questão e exercendo o seu papel de lutar contra o preconceito.

Há uma vergonhosa ideia de que a discussão acerca dos direitos humanos na escola de nada contribui para o crescimento dos alunos, apenas os doutrina. Porém, a verdade é que levantar questões como direitos, preconceito, homofobia, diversidade e outros que englobam esta temática, apenas permite que os alunos sejam influenciados a buscarem um mundo mais igualitário e justo. O aluno gay, ao passar por uma educação básica que o respeitava, começa a acreditar que quando ele precisar enfrentar o mundo fora das grades da instituição, ele também poderá encontrar uma sociedade que o aceite como ele é e o respeite. É preciso fazer nossas crianças acreditarem que o mundo pode ser um lugar melhor e essa sensação de acolhimento, respeito e aceitação deve começar na sala de aula.

Os professores precisam ir além do quadro e do giz. Precisam levantar os olhos dos livros e enxergar o seu papel na vida dos alunos. Como símbolos de conhecimento, muitas vezes, a posição os eleva a um papel muito mais importante e enriquecedor do que, simplesmente, passar a matéria. É preciso pensar no seu papel de influência na vida daquelas pessoas que estão na sala de aula. Por isso, a Filosofia da Educação aparece como um estudo essencial para esta categoria.

Ao entender este papel de influência, os professores e futuros professores podem refletir sobre como os ensinamentos em sala de aula, principalmente os que envolvem a realidade e a vida dos alunos, podem, de fato, mudar algo muito maior. Se cada aluno que escuto sobre diversidade, respeito às diferenças e sociedade igualitária reverberar este conhecimento e ideia para seus familiares, dia após dia, veremos, talvez, uma revolução social se iniciar. Para que a gente possa mudar o mundo, é preciso ter aliados, é preciso ensinar o próximo a enxergar que ele faz parte daquela sociedade tanto quanto qualquer outra pessoa e que se alguém tentar o convencer do contrário, ele precisa lutar pelos seus direitos. Essa força de vontade de buscar seu espaço no mundo e lutar pelo que se pode ser e ter, deve vir da sala de aula. Afinal de contas, o professor, diariamente, muda a vida de seus alunos. E esses alunos, seguirão mudando a vida de outras pessoas, e assim, muda-se o mundo.

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@DesireeLourenco e @GrupoHPM

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Desirée Lourenço

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