Os canibais estão no Canadá. Um paralelo entre a série “Anne with an E” e o ensaio de Montaigne

Texto escrito por mim e Nathalia Lopes

Rachel Lynde: Trago boas notícias do nosso governo!
Gilbert: Há um internato em Halifax. Eles ensinariam a ler e escrever na nossa língua. Entre muitas outras coisas.
(Os indígenas discutem, em sua língua nativa, a possibilidade de enviar sua filha, Ka’kwet, para o internato. Na discussão, mostram-se preocupados com as constantes mudanças causadas pelos brancos.)
Pai da Ka’kwet: Vamos pensar.
Thomas Lynde: Muito bem, querida. Você pode ter salvado alguns índios hoje.”
(Anne, 2019)

O diálogo acima faz parte de um produto de entretenimento, mas poderia ser uma conversa atual. A série Anne with an E se passa no final da década de 1980, no interior canadense, e foi baseada no livro Anne from Green Gables, de 1908. A história acompanha a trajetória de uma menina de 13 anos que, após passar sua infância em lares adotivos problemáticos e um orfanato abusivo, encontra sua família na figura de dois senhores, irmãos, que a criam como filha. Além de ser uma série repleta de momentos cômicos, trágicos e reflexivos, aqui, neste ensaio, destacamos seu aspecto revolucionário.

A conversa reproduzida no início do texto faz parte do terceiro episódio da terceira, e última, temporada da série. Nele, uma senhora, Rachel Lynde — representante da sociedade tradicional da cidade -, oferece a uma família de nativos, a possibilidade de que sua filha, Ka’kwet, fosse para um internato no qual ela aprenderia a língua e costumes dos colonizadores. A última fala é dita pelo marido de Rachel, ainda na conversa com a família, a qual torna patente o caráter dominador que permeia tal atitude.

Dando segmento ao enredo da série, a ida de Ka’kwet ao internato não é bem sucedida. Logo fica claro o real objetivo da instituição: catequizar crianças de origem não-cristã. E tal doutrinação não é feita de forma a ensiná-los um novo viés religioso-cultural, mas a transformá-los naquilo que era visto como correto e aceitável. Punições físicas e morais são mostradas como forma de disciplinar aqueles que não se encaixam no que é esperado.

Paralelamente, Montaigne (2010), em seu ensaio sobre os canibais, reflete sobre o que era dito a respeito dos povos nativos nas terras recém-descobertas. Segundo ele, é preciso lembrar que “cada um chama de barbárie o que não é seu costume” (MONTAIGNE, 2010). A partir dessa reflexão, notamos o preconceito derivado da ignorância. Na história, pano de fundo para o ensaio de Montaigne, vemos que, até hoje, as populações indígenas são tidas como inferiores, menos desenvolvidas e selvagens. Na série, o desconhecido traz medo e insegurança a todos. Em ambos os casos, a frase destacada acima norteia o pensamento.

Ao longo da série, a protagonista, que dá nome ao show, é vista como uma garota à frente de seu tempo. Na pequena escola da cidade, levanta discussões acerca de temas pouco falados, como abuso sexual, feminismo, paridade de gênero e bullying. Devido à sua criação incomum, quando comparada às demais, sua astúcia é tida como perigosa por aqueles que não têm interesse na mudança do status quo vigente: o dominador segue dominando e o dominado deve se calar.

Montaigne, por outro lado, ressalta que suas opiniões e argumentos são traçados a partir de relatos vindos de pessoas comuns. Segundo ele, aqueles com poder e status precisam manter tais aparências e, para isso, modificam as histórias ao seu bel prazer. Pensando no que Montaigne considera ser necessário para contar histórias, Anne preenchia os requisitos. Para publicar um artigo sobre a comunidade indígena, por exemplo, ela não se conteve com as opiniões compartilhadas por aqueles do seu convívio. Para que o relato fosse autêntico e verdadeiro, a menina foi até a aldeia, conversou com seus integrantes e, a partir daí, tirou suas próprias conclusões sobre o que presenciou. Como consequência, foi obrigada a se afastar daqueles “selvagens” por apresentarem um risco à sua vida.

A verdade é que, em ambos os casos, temos o encontro de duas culturas diferentes que precisam compartilhar do local em que vivem. Porém, uma delas defende que, para que isso aconteça, a outra cultura precisa se apagar por completo.

Nesse sentido, a família de Ka’kwet, ao levá-la à estação de trem, reforça para a menina que tudo que ela irá aprender ajudará sua comunidade a transitar de forma segura pela nova sociedade que vem surgindo. Mas ao se deparar com a realidade do internato, descobrimos que, na prática, os brancos não querem os indígenas transitando com tanta facilidade. Eles precisam acabar, ou se dobrar aos costumes e cultura em vigor. Não há espaço para o meio termo. Há espaço, apenas, para a dominação.

A religião exerce um papel ainda mais pitoresco no quadro que temos da vida real e da ficção. Rachel Lynde, a personagem responsável por convidar a menina de origem indígena para o internato, recebeu tal missão como uma amostra de sua devoção a Deus. É nítido, em ambos os registros, como a presença de uma força superior responsável por validar toda e qualquer ação é a desculpa perfeita para que os homens sigam seus interesses econômicos e sociais.

Assim como Montaigne (2010) aponta que as atitudes ditas selvagens dos indígenas brasileiros não são tão distantes das que os portugueses fazem, na série, fica claro que o objetivo dos dominadores foge completamente a qualquer boa intenção. Nas cenas que retratam a personagem no internato, ela é tratada com brutalidade e selvageria. Além da violência física imposta, a moral é ainda mais intensa. Ela é obrigada, inclusive, a trocar de nome, deixando para trás sua origem e suas raízes.

O autor do ensaio em questão acreditava que era preciso um “homem simples e rústico” (MONTAIGNE, 2010) para lhe passar informações reais e verdadeiras. Na série, a protagonista Anne possuía a simplicidade necessária para enxergar o que lhe era mais cristalino do que a água: a cultura indígena e sua amiga Ka’kwet possuíam tanto — ou mais — valor quanto aquela que se dizia superior. Talvez a vivência de Anne em orfanatos e famílias abusivas a tenha lembrado da selvageria presente nos brancos, cristãos e “homens de bem”.

REFERÊNCIAS:

MONTAIGNE, Michel de. Sobre os canibais. In: MONTAIGNE, Michel de. Ensaios. [S. l.]: Penguin, 2010. cap. XXX, p. 127–145. PDF.

ANNE with an E. Canadá: Netflix, 2019. Disponível em: www.netflix.com. Acesso em: 1 set. 2021.

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@DesireeLourenco e @GrupoHPM

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