Pierre Bourdieu se inspirou em mim

Pode parecer brincadeira, mas foi exatamente como me senti quando conheci um pouco do trabalho do filósofo francês. Mas, para chegar ao momento em que nossas vidas se encontraram — a minha e a de Bourdieu — vamos entender a minha trajetória e buscar compreender porque me senti tão representada por tudo que Pierre apresentou em seus estudos.

Desde muito cedo, fui levada a acreditar que não haveria outra possibilidade para mim, a não ser a escola. Minha primeira experiência foi em um jardim de infância católico, inclusive sempre cruzava com freiras pelo pátio da escolinha, e era pequena mesmo, ia, somente, até o falecido C.A, Classe de Alfabetização. Mas o que mais me recordo da escola nessa época, não eram os professores, nem coleguinhas, mas a van escolar e aqui, faço uma pausa para refletir sobre esse fato. Pagar uma pessoa para dirigir seu filho ou filha até a escola já demonstra que a família possui um status social mais próximo da elite. E isso é verdade.

A experiência da van escolar, apesar de ser reconhecidamente elitista, é também de uma enorme capacidade social. Um interessante fato sobre a minha infância é que eu tinha síndrome do pânico e um leve caso de fobia social, ou seja, não me enturmava fácil, mas na van, era bem mais tranquilo. E ainda assim, meu melhor amigo era o motorista, acho que pela idade próxima aos meus pais, eu via nele uma ideia de segurança e confiança. E agora pensando, me questiono: algum daqueles professores percebeu que eu tinha algum problema? Spoiler: não. A ideia de um ensino que distancia os professores dos alunos, mesmo quando esses são apenas crianças recém-afastadas do seio familiar, perdura por muitos anos e criou uma geração de alunos que apenas precisava aprender, passar na faculdade e trabalhar. Como discutimos inúmeras vezes em aula, será que essa é a medida da eficácia escolar? Apesar de não termos uma definição como resposta, sabemos que muita coisa pode e deve ser repensada.

Voltando às minhas memórias, da educação infantil, tenho como recordações mais latentes a van escolar, meio de transporte promovido pelos meus pais para que eu chegasse até a instituição. E justamente em um quesito que parece tão inocente, como o meio de transporte para chegar até o local, vemos refletido as diferentes relações da sociedade x família x escola. Tal ponto tornou-se tão significativo que muitas das pesquisas de eficácia escolar, assim como estudos que procuravam apontar as possíveis causas do bom (ou não) rendimento dos alunos, consideravam a proximidade do aluno com a escola. Isso vai além do momento de transporte, mas também traz à tona uma importante questão de divisão geográfica da cidade, onde as melhores escolas, com melhor rendimento, ocupam espaço de elite. Segundo Bourdieu, isso ocorre pois o espaço social inscrito no espaço físico, busca se igualar com o que está inscrito dentro de nós, o fato de que a escola e a educação tendem a ser um privilégio elitista.

Acelerando um pouco a minha trajetória escolar, passei por uma mudança de bairro, na qual, meus pais buscavam mais segurança e melhor qualidade de vida para criação da família e, dentro dessa busca, destaco que a escolha de onde iríamos morar foi influenciada pela proximidade com a melhor escola que havia na região, afinal de contas, era essencial para eles que as filhas tivessem acesso ao melhor que o dinheiro que eles possuíam pudesse pagar, afinal de contas, como aspirantes à elite, como Bourdieu apontava, a educação era o único caminho possível. Ainda nessa fase, destaco um interessante acontecimento. Desde criança acostumada a jogar futebol na rua, me encaminhei para profissionalizar o que antes era apenas uma diversão. Já quando cursava a quarta série do ensino fundamental — em sua antiga divisão — surgiu uma oportunidade de treinar com um time semi-profissional, porém, os treinos eram no mesmo horário da escola. E lembro, como se fosse ontem, as palavras que minha mãe justificou a minha saída do time: “o futebol não vai te levar a nada, a escola sim.” Bourdieu devia estar presente nesse dia, pois o conceito de êxitos e dons poderia ter sido inicialmente pensado naquele momento.

Após passado o caso da provável-futura-jogadora-de-futebol, eu não tive escolha, a não ser me dedicar aos estudos. Mas pra que? Tendo em casa uma mãe e um pai médico, me parecia que não haveria outro caminho. Apesar de ambos sempre me transmitirem uma herança cultural digna da elite, com viagens, cinema, teatro, acesso à livros e músicas de diversas partes do mundo — meu pai era um apaixonado por Legião Urbana e aos doze anos de idade eu já sabia cantar Faroeste Caboclo inteira — eles pouco me passaram sobre as possibilidades de quem seríamos. E junto a isso, a escola em que eu estudava, uma instituição religiosa, tradicional e que perpetuava a distância entre alunos e professores, como comentei no início do texto, pouco se importava com os nossos possíveis e prováveis dons. Se a nota fosse baixa, você não merecia atenção. A expectativa deles eram baixas, a dos meus pais também e, consequentemente, a minha. Era impossível saber quem eu era, quem eu queria ser se todos repetiam, mesmo que em silêncio, que eu não era nada. Uma educação que perpassa pelo aluno apenas em busca de aprovação em certas faculdades e cursos. E ainda assim, dita como uma educação de qualidade. Qualidade para quem? Apenas para a elite médica/engenheira/advogada que estava se formando.

Quando ressalto que Bourdieu se inspirou em mim, trago mais evidências: após quase 30 anos de vida, decidi seguir um sonho que me foi negado aos 18. Na época, não havia sido por motivos de status social, ou por não ter em quem se inspirar, mas por ser constantemente lembrada de que a carreira a ser escolhida na faculdade, definiria quem eu seria. Influenciada pelo contexto em que me encontrava, era difícil enxergar caminhos diferentes daqueles que se apresentavam como a manutenção do status quo em que me encontrava. O meu Capital Interno, me apontava que a minha busca era ser bem sucedida, e por tal me refiro a, somente, valores monetários. Bourdieu estava certo quando apresentava seu conceito e nos lembrava do quão imersos estávamos em tal realidade, a ponto de não mais nos enxergar de outra forma.

Porém, as experiências que adquiri vivendo, somaram-se ao Capital Cultural herdado da minha família, e, especialmente, com a maturidade, me trouxeram a coragem necessária para quebrar as expectativas postas em cima da sociedade local que me criou e me educou quando mais jovem. E foi, ao entrar em uma faculdade pública, aos 30 anos, após ter terminado o Ensino Médio há 10, através de uma prova realizada por todo o Brasil que entendi que a educação não é apenas uma obrigação, ela é evolução. Ainda neste caminho, cruzei com pessoas que me ajudaram a enxergar que sempre é possível buscar nossos sonhos, mesmo quando o mundo e as pessoas não nos apoiam. Hoje, graças a esse ato de coragem de romper com o que havia sido ensinado, tenho a oportunidade de reconhecer em Bourdieu um filósofo que parece ter saído da minha história. Vocês não concordam?

A massificação da educação, junto a uma falsa promessa de educação igualitária, torna urgente uma revisão no sistema educacional brasileiro. Não apenas no sentido do conteúdo, ou melhor, não apenas no fim da valorização única e extrema do conteúdo, mas também, do objetivo buscado. Saber encontrar, dia após dia, o ponto exato que fiquemos equilibrados — em corda bamba e com um pé só — entre a educação como evolução do ser em busca de se tornar uma parte ativa da sociedade, como defendia Durkheim, e a educação apenas como meio para se chegar ao suposto sucesso final, a realização financeira. E então, neste momento, talvez a gente consiga propor diferentes formas de medir a eficácia escolar, que não apenas uma nota no ENEM.

Referências:

BOURDIEU, Pierre. A Escola Conservadora: as desigualdades frente à escola e à cultura. 1966. (PDF)

KOSLINSKI, Mariane e ALVES, Fátima. Novos Olhares para as Desigualdades de Oportunidades Educacionais. 2012. (PDF).

LOPES, Paula Cristina. Educação, Sociologia da Educação e Teorias Sociológicas Clássicas: Marx, Durkheim e Weber. (PDF)

Sociedade, Educação e Desencantamento em Max Weber. Disponível em: <https://pedagogiaaopedaletra.com/sociedade-educacao-desencantamento-max-weber/>. Acessado em: 04/03/21

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@DesireeLourenco e @GrupoHPM

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Desirée Lourenço

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