Teoria literária e técnicas de escrita criativa a partir da Poética de Aristóteles

Aristóteles, discípulo de Platão e fundador da escola peripatética, é muito conhecido por seus estudos filosóficos e sua contribuição para esse campo de estudo. Porém, além da filosofia, seus trabalhos contribuíram muito para o desenvolvimento de uma outra área de estudo: a de análise literária. Na obra Poética de Aristóteles (2007), ao menos no trecho que chegou até nós, o filósofo grego discorre sobre as técnicas de escrita que determinam a qualidade de um texto poético.

Em seu trabalho, Aristóteles se ateve aos gêneros literários mais importantes à época: tragédia, comédia e epopéia. Porém, ao lermos o trabalho nos dias atuais, percebemos sua inquestionável influência nas teorias de escrita criativa e crítica literária. Suas considerações sobre o que faz uma obra ser boa ou ruim ainda se assemelham muito aos critérios a que temos contato até hoje.

Para começarmos a analisar esses pontos, vamos nos atentar a dois critérios que Aristóteles cita com certa frequência e exaustão em seu trabalho e que, para ele, são obrigatórias na tragédia: o mythos, que aqui chamaremos de enredo, e caracteres, os quais chamaremos de personagens. Além desses pontos, o autor cita outros elementos que devem estar presentes na tragédia: lexis, dianoia, opsis e melopoiia. Estes, referem-se, respectivamente a: elocução, pensamento, espetáculo e música.

O autor dedicou-se durante muito tempo ao estudo do enredo, lexis e personagens. Para ele, o espectáculo (opsis), se é certo que atrai os espíritos, é contudo o mais desprovido de arte e o mais alheio à poética. E que o efeito da tragédia subsiste mesmo sem os concursos e os actores. E, para a montagem dos espectáculos, vale mais a arte de quem executa os acessórios do que a dos poetas. (p. 50 e 51)

Portanto, como visto na passagem acima, Aristóteles entende a música e o espetáculo como áreas pouco artísticas e pouco relacionadas com a técnica do poeta, na qual ele quer focar.

Mythos (Enredo)

Para Aristóteles, a estrutura da tragédia, o enredo construído, é o que faz ela ser boa ou ruim. Para o autor, o poeta “deve ser um construtor de enredos mais do que de versos”, pois ele é um imitador de ações. Com isso, Aristóteles coloca a carga qualitativa na capacidade do poeta de estruturar e encadear acontecimentos que sejam verossímeis. E nesse ponto, é essencial falarmos desse conceito.

Verossimilhança é aquilo que possui uma ligação com o verdadeiro. Em uma obra literária, mesmo que fantástica, por exemplo, é o que proporciona coerência ao texto. Aristóteles reforça exaustivamente a necessidade do enredo poético, especialmente os da tragédia, serem verossímeis, ou seja, realísticos. Segundo o filósofo, a diferença principal entre o historiador e o poeta é que o primeiro conta o que aconteceu e o segundo, o que poderia ter acontecido, ou seja, algo que pudesse ter sido capaz de ocorrer.

Até hoje, a forma como entendemos uma narrativa considerada boa está intrinsecamente ligada ao conceito de verossimilhança exposto por Aristóteles. Mesmo que estejamos falando de obras de fantasia, como Harry Potter, o enredo que possui coerência, se torna crível. Exemplificando, a história do bruxo faz todo sentido quando entendemos a dinâmica que existe dentro daquela obra de ficção. Mesmo que não seja possível, se torna perfeitamente crível.

Ainda sobre o enredo, Aristóteles afirma que o público precisa ser despertado para determinados sentimentos para que a tragédia atinja seu objetivo. Segundo ele, é imprescindível que a platéia sinta temor e compaixão. Esses são os principais sentimentos a serem despertos.

Primeiramente, o temor de que o infortúnio que acontece na história aconteça com cada um daqueles que estão assistindo. Em seguida, a compaixão por tudo que ocorreu. Ainda em relação aos sentimentos a serem despertados, Aristóteles lembra que eles devem ser alcançados através dos versos e não da encenação.

Para despertar esses sentimentos, há algumas situações que Aristóteles indica como ideais, são elas:

Necessariamente, acções deste género passam-se entre amigos ou entre inimigos ou então entre pessoas que não são nem uma coisa nem outra. (…) Mas se o sofrimento ocorre entre pessoas de família como, por exemplo, se o irmão mata, tenta matar ou faz qualquer outra coisa deste género ao seu irmão, ou o filho ao pai, ou a mãe ao filho, ou o filho à mãe, esses são os casos que devem ser aproveitados. (p. 64)

Segundo Aristóteles, ao despertar esses sentimentos no público, o poeta consegue também causar um efeito de catarse, ou seja, a platéia se desfaz daqueles sentimentos sem que precisem passar por tais momentos. Inclusive, o conceito de catarse, também é discutido na obra.

Caracter (personagem)

Assim como para o enredo, Aristóteles tece uma sequência de técnicas que deveriam ser aplicadas na construção dos personagens para que os tornem de boa qualidade. Para começar, o filósofo aponta como característica principal o fato do objetivo motivador, dapersonagem, ser bom. A busca por algo bom ou pela prática do bem é o que deve mover o carácter.

Haverá carácter se, como se disse, as palavras ou as acções da personagem mostrarem que está animada de um certo propósito, e o carácter será bom se esse propósito for bom. (p.67)

Além do objetivo motivador, Aristóteles aponta outros importantes pontos a serem vistos em um bom desenvolvimento de personagem: que sejam apropriados, para exemplificar, o próprio autor traz a questão de que um carácter pode ter valentia, mas não é normal uma mulher ser valente. Em seguida, o terceiro e quarto pontos são a semelhança conosco e a coerência do personagem.

Neste momento, aponto para pensar um pouco mais na questão da semelhança de um bom personagem conosco. Em todas as técnicas de escrita usadas atualmente, no ponto em que tange a criação de um personagem considerado de boa qualidade, ainda enxergamos os mesmos critérios que Aristóteles apresentou em seu trabalho.

A partir das características apresentadas acima, voltamos à questão da verossimilhança muito reforçada por Aristóteles. Assim como no enredo, quando o filósofo apresenta o que considera ser necessário na criação de um bom personagem, vemos uma ligação direta com a necessidade de vermos o desenvolvimento de arcos narrativos críveis e que nos levem de um ponto a outro.

Quanto ao arco narrativo do personagem, Aristóteles aponta a essencialidade de conseguirmos mostrar aos espectadores a evolução de um personagem, assim como o esclarecimento de fatos que interferem na história. Como um bom exemplo de ambos os pontos, a tragédia Édipo Rei é utilizada para apresentar como realizar um bom momento de reconhecimento.

Sobre o reconhecimento, Aristóteles afirma que há vários tipos, como por sinais, os forjados pelos poetas, este apontado como o menos artístico, há o que acontece através da memória e o que ocorre a partir de um raciocínio. De todos, o que melhor funciona, segundo Aristóteles, é o que ocorre através do desenvolvimento dos acontecimentos da história.

Para finalizar a questão dos personagens, é importante falarmos do desenvolvimento pessoal que deve ocorrer durante o processo da história. Segundo Aristóteles, aquele que começou não deve ser o mesmo que chega ao fim da tragédia. Esse arco narrativo, essa evolução pessoal pode estar relacionada ao reconhecimento citado anteriormente ou não, mas, deve ser ascendente, ou seja, o carácter deve evoluir, chegando ao fim como uma pessoa melhor do que era no início. Em determinados casos, pode ocorrer o oposto, mas é necessário que esse arco de desenvolvimento negativo, se assim podemos chamar, seja verossímil de acordo com o enredo.

Conclusão

Fica claro a partir do proposto acima, ainda que de forma inicial, que a obra Poética de Aristóteles foi essencial para pautar e encaminhar os atuais preceitos adotados em estudos de escrita criativa e análise literária. Ressalto a importância do conceito de verossimilhança na obra do filósofo grego, até hoje dada como essencial para apontar a qualidade de um trabalho literário.

A identificação que o público sente ao ler um livro, seja por já ter passado por uma situação similar ou por sentir empatia com tal personagem, ou, até mesmo, por não querer que tal caso aconteça com si, é o que traz uma história para dentro do leitor ou espectador. Como já usado anteriormente nesse texto, o exemplo de uma história fantasiosa, como Harry Potter, ilustra bem o poder de um personagem verossímil, que causa identificação em quem lê. Afinal de contas, quem nunca passou por uma situação de se sentir deslocado dentro de casa e com a certeza de que pertence a algum outro lugar?

A identificação com enredos e personagens é o que parece, desde Aristóteles até os dias de hoje, como o ponto de partida para análise literária de tragédias, epopéias, romances, ficção e outros gêneros literários. Sem dúvidas, conseguimos confirmar a importante contribuição do filósofo grego na área de literatura, não só como na filosofia.

Referências:

ARISTÓTELES ; PEREIRA, M. H. D. A. R.; VALENTE, A. M. Poética. Tradução. [s.l.] Fundação Calouste Gulbenkian, 2007.

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@DesireeLourenco e @GrupoHPM

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Desirée Lourenço

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