Paisagem, pensamento e poesia no poema “Tudo aqui é um exílio”, de Lubi Prates e no filme “M8: Quando a morte socorre a vida”

Paisagem, verdade e história

De acordo com o ensaio de Michel Collot, “Poesia, paisagem e sensação”, a definição de paisagem seria “um fenômeno que muda, segundo o ponto de vista que se adota, e que cada sujeito reinterpreta em função não somente do que ele vê, mas do que ele sente, experimenta e imagina.” (Collot, 2015)

Com isso, entende-se que a definição de paisagem perpassa pela ideia de algo particular, intrínseco a quem vê, quem fala, sobre o que se vê e como se fala, ou seja, mutável, irreprodutível e tão particular quanto a subjetividade característica de cada um de nós.

Portanto, cada um de nós é capaz de criar uma diferente paisagem mesmo quando falamos do mesmo objeto de atenção. Isso porque, cada um de nós temos uma história, um mundo do qual vivemos e uma forma única de enxergar o que há ao nosso redor, gerando assim, diferentes percepções e sensações.

Um grupo de pessoas que compartilham de crenças, status social, opiniões e histórias tende a criar uma paisagem similar sobre determinado ponto de vista. Quando essas paisagens, bem parecidas entre si, são criadas por uma comunidade com poder, é esperado que ela se torne referência e, com o tempo, até mesmo uma verdade criada para contar a história.

É fácil entendermos essa ideia quando analisamos a própria história do nosso país. Paisagens criadas por europeus, que contaram a história a partir de suas vivências e emoções, que, por seu status de poder, transformaram seus relatos em verdade irrefutável. Ao menos, até agora.

O desenvolvimento de paisagens através de diferentes percepções e visões, é o que, muitas vezes, nos garante o acesso ao que chamamos de “outro lado da história”, e que na verdade, deveríamos chamar apenas de história. São essas diferentes paisagens, sensações e sentimentos que nos contam a verdade. A verdade sob o olhar de todos os envolvidos.

É preciso, dessa forma, garantir que a verdade de todos seja ouvida. Muitas vezes, precisamos recontar a história que acreditamos conhecer, sob a percepção de quem não havia falado anteriormente. Criando novas paisagens que sobressaem aquelas que já conhecemos, passamos a conhecer e reconhecer as camadas de realidade, as verdades que mudam de acordo com seu locutor.

A verdade de Lubi Prates

Tendo como base a ideia da relação de uma pessoa com o mundo que a cerca, esse trabalha busca analisar as paisagens presentes no poema “Tudo aqui é um exílio”, de Lubi Prates e o filme “M8: Quando a morte socorre a vida”. Ambos, serão analisados de acordo com a paisagem que apresentam.

Antes de entrarmos no poema de Lubi Prates, é essencial conhecermos um pouco mais da autora, pois assim, conseguimos traçar um paralelo com a paisagem apresentada em seus poemas. Lubi Prates, mulher negra e escritora, traz para o seu trabalho sua percepção de mundo enquanto parte de uma comunidade invisibilizada e marginalizada diariamente.

O poema que trataremos neste artigo, “Tudo aqui é um exílio”, foi escrito em 2019. É esperado que no século XXI, não estejamos falando de exílio ou escravidão, já que, ambos, fazem parte do passado. Porém, Lubi nos mostra que a sua vivência não condiz com a verdade que acreditamos conhecer. Seu poema correlaciona a sensação vivida por seus antepassados, trazidos em navios negreiros que forçaram o mar com o exílio vivido por toda uma comunidade que é perseguida todos os dias por um Estado que os condena apenas pela cor de seus corpos.

A ideia de paisagem como a relação de um ser com o mundo ao seu redor, levando em consideração a subjetividade presente em cada um de nós, fica evidente no texto de Lubi Prates, quando a autora usa como base um poema de Gonçalves Dias como referência para mostrar que, até hoje, o exílio é uma realidade para toda uma comunidade que vive no ostracismo da sociedade. Verdade essa, que, sem dúvidas, pode soar como novidade para muitos.

Identificação e percepção em M8

A diferença de percepções de acordo com a subjetividade de cada um é o que inicia o filme “M8: quando a morte socorre a vida”. Na história, Maurício é um estudante de medicina negro. É importante citar esse detalhe ao pensarmos que vivemos em uma sociedade que ainda reduz o acesso à educação superior através de uma escola pública de baixa qualidade e um exame de acesso que exige alto nível de conhecimento. Faz pouco tempo que as primeiras medidas para igualdade de oportunidades foram criadas.

Neste cenário, Maurício se encontra sendo o único negro na turma, exceto pelos corpos analisados em sua aula de anatomia: todos, majoritatiamente, negros. A única identificação possível para o estudante é com aqueles que estão mortos, deitados em uma maca fria, sendo tratados como material de estudo para uma classe que não faz ideia do que está por trás da vida daqueles que ali estão. E é quando Maurício começa a refletir que ele mesmo não sabe como tais corpos, tão similares ao seu, chegaram até ali.

Em uma busca para identificar a origem dos corpos, Maurício entra em choque com uma realidade tão próxima a dele, mas também, tão distante: a do assassinato em massa de pessoas negras, sem justiça, sem motivos, sem explicações. Corpos que, muitas vezes, não são identificados ou, ao menos, devolvidos às famílias para que possam ser enterrados com a dignidade merecida. Mas, como diz Lubi Prates, no poema “para este país”, “só veriam meu corpo / um corpo negro”, um corpo que não merece dignidade.

Em sua busca, Maurício e seus amigos, que possuem uma percepção ainda mais distante e distorcida de tal paisagem, se dão conta do descaso do Estado com jovens negros que morrem, muitas vezes, vítimas de uma sociedade que não os enxerga, não os respeita e não os tratam como parte do todo que nos forma.

Em um paralelo com o poema de Lubi Prates, a identificação com o corpo similar ao seu, deixa o estudante em uma posição de exílio, onde o que ele mais se identifica, é, na verdade, quem está morto e quem está sendo morto por aqueles que são similares aos ocupam a mesma sala de estudos. É nessa vivência confusa que a paisagem de Maurício se desenha perante seus olhos.

As vozes antes silenciadas

Ao verificarmos as datas de produção dos materiais analisados nesse artigo, percebemos que ambos possuem direta relação com o mundo que vivemos hoje. Uma paisagem criada no século XXI que nos faz — ou deveria fazer — questionar o que estamos registrando como história e verdade. Sabemos que no passado, nossas verdades foram baseadas em apenas um lado da vivência e que as outras percepções foram ignoradas e silenciadas.

É cada vez mais urgente a busca pela voz de comunidades que, durante toda nossa história, foram deixadas enterradas, em calabouços, em navios que furaram as ondas, em matas devastadas, em mortes não explicadas. Através da poesia, a paisagem toma uma nova perspectiva: daqueles que foram empurrados para os limites da humanidade e, aos poucos, com toda a força que têm, vêm galgando e conquistando seus espaços de representatividade.

O encontro de um negro, indígena, LGBT+, mulher, e tantas outras minorias — que muitas vezes são maioria — com o mundo, cria uma paisagem nova, uma paisagem que nos faz questionar tudo aquilo que foi dado como única forma possível de pensamento. E é essa nova forma de enxergar, analisar e falar sobre a paisagem que nos traz também um novo país, um novo mundo de possibilidades e encantamentos. A literatura, a cultura, a arte são a porta de entrada e o alto-falante para a criação de um mundo multi, plural e composto de pensamentos e paisagens diversas.

Referência:

PRATES, Lubi. Tudo aqui é um exílio. In: PRATES, Lubi. Um corpo Negro. Brasil: [s. n.], 2019.

COLLOT, Michel. POESIA, PAISAGEM E SENSAÇÃO. Revista de Letras, [S. l.], p. 17–26, 1 jun. 2015.

M8: quando a morte socorre a vida. [S. l.: s. n.], 2019. Disponível em: Netflix. Acesso em: 1 jun. 2021.

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@DesireeLourenco e @GrupoHPM

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